KUNG FU SHAOLIN

por Roberto Pedroso

O que é uma Arte Marcial?

Existem diversas concepções acerca do significado do termo Arte Marcial, sendo que em muitas delas há uma distinção entre escolas de arte marcial e escolas de técnicas de combate. O termo marcial é relativo a Marte, deus romano da Guerra, e por isso tradicionalmente se entende que as artes marciais seriam, em um sentido mais literal, artes de guerra. Deste modo, poderiam assemelhar-se às técnicas de combate desarmado ou com armas brancas utilizadas nas batalhas dos tempos antigos. No entanto, as guerras atuais dependem muito pouco deste tipo de técnica, e não podemos acreditar que ao falar em artes marciais hoje as pessoas estejam se referindo a técnicas de armas de fogo, armas químicas e biológicas, jogos políticos, espionagem ou instrumentos de manipulação de massa, que são de fato as principais técnicas de guerra da atualidade. Certamente o vínculo literal das artes marciais com a guerra, se algum dia de fato existiu, foi perdido já há bastante tempo.

Entretanto, há uma interpretação um pouco diferenciada deste conceito e do vínculo da arte marcial com a guerra: a de que se trata de uma guerra individual, contra as próprias barreiras e limitações do praticante. Esta interpretação é adotada por muitas pessoas, pois a maioria não faz seu treinamento visando atitudes bélicas, e sim o desenvolvimento pessoal, usando as metáforas e os aprendizados do combate para lidar com seus próprios conflitos e superá-los de uma forma mais harmônica.

Em mandarim, a expressão arte marcial é geralmente traduzida como wushu [武術, wǔshù]. O ideograma 武 (wu) representa a marcialidade, o elemento relativo à guerra. Etimologicamente é formado por outros dois ideogramas, 止 e 戈, que significam respectivamente evitar/parar e alabarda (um tipo de arma longa e pesada de guerra). Como se pode perceber, em mandarim o termo associado à guerra não remete à agressão ou ao ataque, mas sim ao ato de evitar o conflito, de interromper o ataque, de parar a alabarda. Assim, uma análise etimológica do termo arte marcial em chinês nos levaria ao sentido de arte de evitar conflitos ou ainda a arte de parar a luta. Novamente, estes conflitos podem ser tanto pessoais como podem ser conflitos entre outras pessoas. Em um contexto social, poderia ser a arte de evitar conflitos com as pessoas com quem nos relacionamos. Numa análise mais introspectiva, seria a arte de evitar conflitos internos ou ainda a arte de terminar com nossa incessante luta contra nossa própria consciência. Enfim, arte marcial seria um caminho para aperfeiçoar-se e desenvolver-se ao ponto de ser capaz de evitar qualquer tipo de conflito.

Em nossas aulas de kung fu, os praticantes são incentivados a desenvolver exatamente este conceito de arte marcial. Apesar de aprendermos técnicas avançadas de combate, que podem ser muito destrutivas se a ocasião exigir, o praticante aprende também que não bastam as técnicas de defesa pessoal, pois estas dizem respeito a apenas um tipo de conflito muito particular. Hoje em dia são poucas as pessoas que precisam lidar com combates físicos, pois felizmente estas situações estão cada vez menos presentes na sociedade civilizada, e mesmo em situações de perigo (como um assalto, por exemplo) os envolvidos têm muito mais chance de efetivamente se defender mantendo a calma e o equilíbrio do que reagindo com socos e chutes.

Por esses motivos reforçamos que a prática da arte marcial busca algo maior. O praticante de Kung Fu aprende que ao responder a agressões com mais agressão somente estará aumentando o conflito e gerando mais tristeza e sofrimento para todos os envolvidos. É fundamental que o praticante busque um estado de equilíbrio através dos treinos, e que seu objetivo seja desenvolver seu corpo, sua mente e seu espírito como um conjunto em sintonia, para enfim sentir-se realmente capaz de resolver qualquer conflito, seja ele físico, mental ou espiritual, e com isso promover crescimento e propagar o espírito bondoso e caridoso que cultivamos em nossa arte.


Uma senda de lutas!

Para compreender o que significa uma senda de lutas e por que caracterizamos assim o Kung Fu Shaolin é preciso primeiramente conhecer a distinção fundamental entre uma luta e uma briga. A briga é um encontro violento, um conflito de egos, onde o resultado esperado é sempre a destruição física e emocional de ambos os lados, gerando consequências negativas para todos ao redor. A luta, por outro lado, é um processo construtivo inerente à condição humana e necessário ao aprendizado do homem, promovendo o crescimento ao colocar o indivíduo frente a frente com suas próprias limitações e lhe incentivando a superá-las.

Todos passamos por muitas lutas ao longo de nossas vidas. Você pode lutar contra uma doença grave, que o aflige ou a algum ente querido, lutar por condições melhores para sua família, enfrentar desafios no trabalho, batalhar por uma promoção ou ainda para ser aprovado em um exame acadêmico. Pode ser que hoje mesmo você esteja lutando contra dificuldades financeiras, barreiras psicológicas ou mesmo por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa para seus filhos. Em nosso próprio nascimento passamos pelo parto, uma luta incrível que nos fortalece e prepara para o que virá. Certamente você já enfrentou algumas lutas na sua vida, mas pode ter certeza de que muitas outras ainda estão por vir.

Um dos principais objetivos do Kung Fu é justamente preparar os praticantes para enfrentar esses desafios que a vida inevitavelmente irá lançar sobre eles. Um praticante de arte marcial começará a trilhar o que chamamos de caminho do guerreiro, uma jornada de superação e autoconhecimento que visa torná-lo um lutador preparado para enfrentar qualquer batalha que surgir em seu caminho.

Ser um lutador é sinônimo de ser alguém que não desiste nunca, ou seja, uma pessoa determinada a vencer suas batalhas, sejam elas físicas, mentais ou espirituais. Essa determinação ou força de vontade é o principal elemento para vencer no âmbito profissional, familiar, acadêmico ou qualquer outra esfera de sua vida. No entanto, ainda que a vontade seja o principal elemento, sem o qual dificilmente se obtém êxito na luta, muitas outras virtudes são necessárias para complementar essa formação, dentre as quais se destacam a humildade, o respeito, a perseverança, a resistência, a honestidade, a confiança, a paciência, a lealdade e a coragem. Essas virtudes formam o Wude, o código de ética marcial do Kung Fu. Ao contrário do que muitos podem pensar e do que é propagado pelo senso comum, o espírito de um lutador não é e não pode ser violento, mas sim vigilante e preparado para enfrentar o desafio que surgir.

A senda de um lutador é, portanto, um caminho de aprendizado. O praticante de Kung Fu Shaolin irá lutar contra o que for necessário da melhor maneira possível, buscando sempre estar preparado para defender a si e a quem estiver precisando de ajuda. O objetivo desta luta constante é o próprio crescimento e amadurecimento do praticante, em harmonia com o desenvolvimento da sociedade e de todos os seres com quem convive. Uma vez que estamos todos lutando sempre em nossas vidas nas mais diversas batalhas, aquele que possuir ou buscar desenvolver um espírito de guerreiro irá potencializar seu crescimento pessoal, alcançando através de suas próprias conquistas as mais elevadas virtudes que o ser humano pode desenvolver.

É importante entendermos que nessa busca pela superação ou pelo desenvolvimento pessoal há diversos caminhos pelos quais uma pessoa pode optar. O potencial humano é praticamente ilimitado, e para tornar-se uma pessoa melhor e superar seus desafios o homem tem à disposição inúmeras possibilidades. Há quem opte por trilhar a evolução espiritual, aderindo às doutrinas das instituições religiosas, por exemplo, ou ainda desenvolver suas faculdades mentais através do estudo acadêmico e da pesquisa científica. De fato, o desenvolvimento pessoal não se restringe a dois ou três fatores, mas engloba conceitos como felicidade, saúde, estética, habilidades físicas e motoras, competências profissionais, relacionamento interpessoal, dentre inúmeros outros. A arte marcial é um excelente caminho para buscar esse desenvolvimento, mas é uma opção com suas próprias particularidades. Trata-se de um caminho onde o praticante é forjado em incessantes provas de inabalável força de vontade e incansável resistência, um caminho de muito suor e dedicação. De fato é um caminho árduo e rigoroso, mas que trará benefícios vitalícios para o corpo, a mente e o espírito daquele que se dedica verdadeiramente a esta arte.


Kung Fu ou Wushu?

No Ocidente, o termo Kung Fu [功夫, gōng fu] se tornou muito popular na segunda metade do século XX. Sua tradução aproximada é trabalho árduo ou ainda tempo de experiência, de dedicação, de habilidade, e em mandarim é utilizado também sem vínculo com as artes marciais. Ou seja, você pode ser um médico e ter um bom kung fu em sua profissão, à medida que se dedicou por muito tempo, passando trabalho e se esforçando sem medidas, a fim de conquistar a experiência e a habilidade que possui hoje na área da medicina. O mesmo vale para qualquer outra atividade onde haja treino árduo e dedicado, através de longa prática, para desenvolver uma determinada habilidade, para fortalecer o corpo e a mente, para aprimorar o aprendizado, ou ainda todos estes elementos reunidos.

Não se sabe ao certo quando começou a identificação do termo "Kung Fu" com as artes marciais chinesas, ainda que as especulações geralmente apontem para a chegada dos imigrantes chineses na América, quando os americanos questionavam a origem das habilidades marciais dos orientais e recebiam como resposta apenas a expressão “Kung Fu”, ou seja, muito trabalho árduo e dedicação, que proporcionaram experiência e habilidade ao longo do tempo.

O termo Wushu significa mais literalmente Arte Marcial em mandarim. A denominação mais apropriada para nossa arte, portanto, seria Kung Fu Wushu, que significa trabalho, tempo de dedicação, experiência e habilidade nas artes marciais. Ainda assim, a fim de facilitar o entendimento e a aproximação do público leigo, normalmente preferimos utilizar apenas o termo Kung Fu, por ser já tão popular em nossa sociedade ocidental.

Existem tantos estilos de Kung Fu e tão diferentes entre si, cada qual com suas diversas linhagens, que muitos praticantes consideram na verdade o termo Kung Fu significando apenas artes marciais chinesas em seu aspecto mais global, enquanto cada estilo individual é considerado uma arte marcial separada e independente.

Grande parte dos estilos de Kung Fu existentes hoje em dia foram inspirados pela observação dos movimentos de animais como tigre, serpente, águia, macaco, garça, louva-a-deus, entre outros. Alguns estilos tomam inspiração em princípios da filosofia chinesa, como o Tai Chi Chuan, o Pa Kua e o Lohap. Outros assumem nomenclaturas que fazem referências geográficas, como o Shaolin do Norte, ou referências a linhagens familiares, como o Hung Gar ou o Choy Li Fat.

Em nossa escola, o principal estilo de Kung Fu praticado é o Shaolin do Norte, na linhagem do Grão-mestre Chan Kowk Wai. O próprio grão-mestre, no entanto, também propagou técnicas de outros estilos que aprendeu ao longo de sua trajetória, e da mesma forma aprendemos alguns destes estilos em nossa escola, como Tai Chi Chuan, Choy Li Fat, Louva-a-Deus, Xing Yi, Lohan, Lohap, Tantui, Garra de Águia, Wing Chun e algumas técnicas de Wushu Moderno.

O Kung Fu é uma arte marcial chinesa de filosofia, habilidade, confiança e determinação. Seu objetivo maior é a busca pela integração do homem ao meio ambiente através da harmonia com a natureza seguindo os movimentos dos animais. O praticante deve buscar o autoconhecimento, a melhoria na saúde e, em caso de necessidade, a defesa pessoal.
Mestre Lauro Telles, 2005.

História vs. Lendas

O Kung Fu teve sua origem há milhares de anos na China. Há evidências através de monumentos históricos da existência das artes marciais chinesas há mais de 5.000 anos, sendo o seu surgimento cercado por mitos e lendas.

Há uma estreita relação estabelecida entre o treinamento marcial e a formação intelectual na história da civilização chinesa. No reino Zhou do Oeste (c.1100-771 a.C.) o sistema de ensino incluía seis áreas principais por meio das quais se pretendia uma educação completa: rituais (li), música (yue), danças de guerra com armas (wu wu), tiro com arco (she), matemática (shu xue jia) e manuseio de carruagens e equitação (zhan che). Séculos depois, Confúcio (551-479 a.C.) retomou essa postura no seu ideal de “homem superior” [君子, jūnzǐ], considerando importante que aqueles que se dedicam a estudos acadêmicos também pratiquem artes marciais, e vice-versa. O confucionismo e a visão holística da formação do indivíduo perpetuaram-se na China até os dias de hoje, mantendo viva essa relação intrínseca entre as atividades intelectuais e o treinamento marcial.

Dentre as mais diversas lendas acerca do surgimento do Kung Fu, uma das histórias mais populares relata a chegada do monge indiano Bodhidharma à China para difundir o budismo, se dirigindo então ao Templo de Shaolin, na província chinesa de Henan. Ao chegar no templo, Tamo - como ficou conhecido na China - encontrou monges debilitados, que não suportavam sequer os períodos de meditação necessários à prática budista sem ceder ao sono ou ao cansaço. O monge indiano os ensinou então uma série de exercícios para fortalecimento e saúde, e graças à dedicação dos monges esses exercícios se desenvolveram, formando a base da arte marcial conhecida como o Kung Fu de Shaolin. Assim, as origens desta arte estariam intimamente ligadas aos princípios do taoísmo e do budismo chinês, pois o Kung Fu teria se desenvolvido dentro do mosteiro sendo influenciado pelas doutrinas dos monges.

De acordo com a lenda, os monges perceberam o incrível valor que aqueles exercícios traziam para a defesa pessoal, permitindo que defendessem seu templo dos ataques constantes de ladrões e bandoleiros. As habilidades em combate dos monges de Shaolin tornaram-se famosas por toda a China, levando generais e governantes a enviarem seus filhos para treinar no templo. Logo o Kung Fu de Shaolin passou a ser referência para outras artes marciais e seus sistemas tornaram-se cada vez mais completos e especializados, abrangendo um número de técnicas cada vez maior. Essas técnicas se diversificaram ainda mais com o passar dos anos, gerando assim centenas de estilos diferentes de Kung Fu que se espalharam por toda a China.

Ainda que a lenda acima possa ter uma veracidade questionável, este não é o ponto mais importante. É muito difícil precisar a origem histórica do Kung Fu, e atualmente existem diversos historiadores e pesquisadores trabalhando nestas questões sem chegar a um consenso. De qualquer modo, o importante é entendermos como é a nossa arte hoje, e como podemos desenvolvê-la para tornar-se cada vez mais representativa no mundo e na vida das pessoas.

O passado, seja ele histórico ou mitológico, deve funcionar como um grande farol para nos indicar caminhos que poderiam passar despercebidos. Ao estudar a história do Kung Fu entendemos melhor a realidade que nos cerca, aprendendo a identificar os elementos folclóricos envolvidos na arte marcial. Isto não significa que a falta de comprovação histórica elimine os méritos dos mitos e das lendas. Não devemos ficar cegos à realidade, acreditando em fantasias, ficção ou mitologias, porém muitas vezes o principal objetivo destas histórias é o despertar de nossas reflexões, independente de representarem um fato histórico ou não.

O principal papel do estudo do passado e da história do Kung Fu na verdade se refere à influência que recebemos dos mestres que nos antecederam. É fundamental valorizarmos suas lições e os diversos sentidos que elas podem produzir.


Tradicional ou Moderno

Na segunda metade do século XX, durante a República Popular da China, o governo comunista chinês instituiu o Wushu Moderno com o objetivo de oficializar o Kung Fu Wushu como prática desportiva e elemento de identidade nacional. Grandes mestres da época adaptaram técnicas de seus estilos tradicionais para um novo estilo moderno, visando não mais a defesa pessoal, mas sim o desenvolvimento atlético. Este novo esporte deveria ser baseado nos movimentos do Kung Fu tradicional e, portanto, expressaria a marcialidade e o espírito de luta, excluindo qualquer conteúdo filosófico ou qualquer doutrina cultural que não se enquadrasse nos moldes desportivos.

Ao tornar-se um esporte oficial da China, o Wushu Moderno passou a ser ensinado nas escolas e universidades. As competições começaram a dar enfoque para os eventos de Wushu moderno e as escolas de Kung Fu Wushu tradicional perderam o destaque no país, o que levou muitos mestres tradicionais a deixar a China para ensinar Kung Fu em outros países, inclusive atravessando continentes e cruzando oceanos. Apesar de atualmente existirem escolas de Kung Fu tradicional por todo o mundo, muitas pessoas associam as artes marciais chinesas apenas ao Wushu moderno, graças à sua presença intensa na mídia, até mesmo no cinema através de grandes astros como Jet Li ou Jackie Chan. O Wushu moderno tornou-se tão popular que é comum atualmente utilizar-se o termo Wushu para se referir ao Wushu Moderno e o termo Kung Fu para se referir ao Wushu Tradicional.

Ainda que sejam ensinadas algumas formas e técnicas de Wushu Moderno em nossa escola, nosso foco principal é o Kung Fu tradicional. Aos alunos que anseiam por competir nas modalidades modernas, deixamos esta possibilidade aberta, mas alertamos que nossa característica principal não é a do ensino desportivo e competitivo.

O Wushu Moderno como esporte de competição se divide em duas modalidades principais: Taolu (formas ou rotinas) e Sanda (combate).

A competição de rotinas, ou Taolu [套路, tàolù], tinha inicialmente um complicado empecilho para o julgamento dos árbitros que era a grande quantidade de estilos diferentes. Isso foi resolvido criando-se uma lista limitada de estilos oficiais de Wushu moderno, criados a partir de generalizações de outros estilos. Eles são divididos entre estilos do norte (baseados em estilos como Shaolin do Norte, Cha Quan, Hua Quan, Hong Quan, etc.) e estilos do sul (baseados em estilos como Hung Gar, Choy Li Fat, etc.). Os competidores executam suas rotinas e são julgados através de um sistema de pontuação onde os principais atributos avaliados são as bases, chutes, socos, equilíbrio, saltos, giros, expressão, entre outros.

As principais categorias de competição são:

O Sanda [散打, sàndǎ] é a modalidade de competição em combate do Wushu Moderno, utilizando luvas, protetores e regras específicas. Também conhecido como Sanshou Moderno - ou principalmente no Brasil apenas como Sanshou - "Sanda" significa literalmente "luta livre".

O Sanda foi originalmente desenvolvido a pedido do governo chinês, que precisava de uma forma unificada de treinamento para ensinar ao exército. Vários mestres de Kung Fu Wushu tradicional foram convocados para criar um estilo moderno de luta a partir das técnicas mais simples e eficazes em combate de seus estilos tradicionais. Esta nova modalidade deveria obedecer três aspectos: simplicidade, combate direto e efetividade contra oponentes mais fortes. Com o passar dos anos, o Sanda foi sendo aprimorado em termos de eficácia em combate individual através de estudos e pesquisas científicas. Entre as técnicas utilizadas estão os chutes, socos, esquivas, bloqueios e projeções.

Em 1979, o governo decidiu incluir o Sanda como uma modalidade das competições oficiais, em uma tentativa de minimizar os campeonatos clandestinos violentos que ocorriam com freqüência cada vez maior. A partir de então o Sanda têm conquistado um espaço crescente nas artes marciais desportivas, especialmente no MMA, ganhando popularidade no mundo inteiro. Mais de 95 países já têm competições oficiais de Sanda, que está se mostrando um esporte ideal para a simulação precisa de combates mais realistas.


Shaolin do Norte

O Shaolin do Norte [北少林, běishàolín] que treinamos atualmente não é apenas um estilo de Kung Fu tradicional, mas sim um sistema organizado pelo mestre Ku Yu Cheong a partir dos diversos estilos que aprendeu durante sua trajetória. Tendo sido discípulo direto dos descendentes do templo Shaolin, Ku Yu Cheong tornou-se uma verdadeira lenda na China, sendo assim convidado a representar a Academia Central em Cantão ao lado de outros grandes mestres de sua época. Algum tempo depois abriu sua própria escola, chamando de Shaolin do Norte o conjunto de técnicas que ensinava. Essas técnicas envolviam os famosos 10 Caminhos de Shaolin, o estilo Yang de Tai Chi Chuan, Ba Gua Zhang, Xing Yi Quan, Tam Tui, Chan Quan, Pa Chi, além do Chi Kung marcial do Pequeno Sino de Ouro e da Palma de Ferro. A partir de Ku Yu Cheong, a linhagem do Shaolin do Norte prosseguiu e chegou ao Brasil em meados dos anos 60 através do grão-mestre e atual herdeiro do estilo Chan Kowk Wai, que também aprendeu técnicas de outros estilos e as acrescentou ao sistema que chamamos Shaolin do Norte.

O estilo principal que dá nome ao sistema - os 10 Caminhos de Shaolin - é composto não somente pelos 10 katis de mãos livres que o nome indica, mas também por dezenas de katis com armas curtas, médias e longas, além de outros katis especiais. As técnicas empregadas nas formas do estilo abrangem uma grande variedade de golpes dos estilos originais de Shaolin, empregando socos, chutes, rasteiras, quedas, torções e muitas outras técnicas, principalmente seguindo o movimento dos animais.

No sistema atual do grão-mestre Chan Kwok Wai foi incluído um kati inicial, além dos 10 katis de mãos livres principais, conforme mostramos a seguir:

Ordem Português Mandarim Ideogramas
Passos de Treino liàn bù quán 练步拳
Luta Curta duǎn dǎ quán 短打拳
Flor de Ameixa mei hua quán 梅花拳
Fura Coração chuan xin quán 穿心拳
Habilidade Marcial wu yi quán 武艺拳
Puxa-passo ba bu quán 拔步拳
Montar Cavalo zuo ma quán 坐马拳
Mostrar Caminho ling lu quán 领路拳
Abre Portões kai men quán 开门拳
10º Continuidade, ou
Corrente Continua
lian huan quán 连环拳
11º Ritos, ou
As Tecnicas e o Dharma
fa shi quán 法式拳

Como é o treinamento?

As aulas de Kung Fu são bastante abrangentes e englobam muitos elementos de treino, como exercícios específicos para resistência, fortalecimento e alongamento, treinamento de bases e fundamentos, kati (sequências de técnicas específicas), técnicas respiratórias e de relaxamento, defesa pessoal em duplas, projeções, torções e outras imobilizações, inclusive com lutas no solo. Os alunos aprendem a desenvolver sua energia e força interna através do Chi Kung, aprendem a meditar e são incentivados a ampliar seus conhecimentos teóricos e culturais na busca do crescimento pessoal. Há ainda o Wude, uma espécie de código de conduta marcial informal, que visa o desenvolvimento principalmente das seguintes virtudes: humildade, força de vontade, respeito, resistência, honestidade, perseverança, confiança, paciência, lealdade e coragem.

Na maior parte das vezes as aulas costumam ser divididas em dois momentos: o treino coletivo e o treino individual. Durante o primeiro, os alunos são reunidos e seguem as mesmas instruções passadas pelo professor. São exercícios de ginástica, aquecimento, fortalecimento muscular, alongamento, técnicas específicas de combate, exercícios de respiração, dentre muitos outros. No segundo momento – o treinamento individual – cada praticante passa a executar individualmente ou em pequenos grupos as técnicas já aprendidas, especialmente repetindo os katis, sendo supervisionados e orientados pelo professor que circula pela sala.


Kati

A base técnica da maioria dos estilos de Kung Fu é formada principalmente pelos katis - sequências de movimentos marciais (ataques, defesas, esquivas, torções, etc.) encadeadas lógica e harmoniosamente que simulam um combate real. Na China os katis são chamados principalmente de Taolu (rotina, forma, método padrão), porém no Brasil ficaram particularmente conhecidos como Katis, provavelmente em uma associação com os Katas do Karate. Existem centenas de katis entre os mais variados estilos de Kung Fu, com ou sem o uso de armas, e sua prática dedicada é capaz de desenvolver:

O treinamento através de kati é uma das características mais marcantes do Kung Fu, pois desde os primeiros registros que temos dessa arte já são citadas as sequências de movimentos treinadas repetidamente. Costumamos dizer que há três segredos para progredir no Kung Fu: repetir, repetir e repetir. A repetição incansável tem relação direta com o grau de desenvolvimento do praticante em relação às técnicas contidas nos katis e também ao seu desenvolvimento como um todo. Isso porque ao treinar um kati o praticante não está aprimorando apenas as técnicas específicas daquele kati, mas está também fortalecendo sua perseverança e resistência, alimentando a determinação e a força de vontade, exercitando a concentração e a memorização, aumentando sua força física, sua flexibilidade e desenvolvendo sua capacidade cardiovascular.

No entanto, a simples repetição de forma automática e sem a intenção e o espírito marcial corretos acabam conduzindo o praticante à estagnação. É preciso ter o cuidado de executar os katis de forma correta, ou seja, com muita energia e vontade de superação, buscando melhorar a cada nova execução.

Há quatro elementos que devem estar sempre presentes na execução dos katis:

Em mandarim a mesma palavra pode ser usada para mente ou para coração (Xin), e neste caso o que queremos dizer é que sua mente e seu coração devem estar presentes e focados na execução do kati. De nada adianta executar um kati enquanto pensa no trabalho, na família, na namorada ou em qualquer coisa que lhe desvie a mente ou o coração. É preciso trazer seus pensamentos para o momento presente e concentrar-se na atividade que está sendo realizada, não apenas com o corpo mas também com toda a consciência.

Em seguida, a mente focada deve gerar a intenção (Yi) correta, pois é essa intenção que será o motor para o corpo. Mais do que a força física, é a intenção que irá comandar o corpo para utilizar ao máximo seu potencial. É a concentração máxima e a vontade intensa de realizar algo. A intenção dá origem e direção para a energia (Chi) interna, que será então canalizada de forma adequada, preservando força, resistência e saúde do praticante.

Por fim, temos o espírito (Shen), cujo conceito também significa consciência, vitalidade e expressividade. Isto é, após estarmos com a mente e o coração focados, a intenção adequada e a energia necessária, precisamos alinhar nosso espírito para expressar com vitalidade a arte marcial. O Shen é o olho de tigre, o espírito de guerreiro, o elemento final que faz com que uma simples sequência de movimentos se torne um momento de transcendência.


Sanshou, o treinamento de luta de mãos livres

Quando falamos em Sanshou [散手, sànshǒu] em nossa escola não estamos nos referindo à modalidade desportiva de combate do Wushu Moderno, que muitos chamam também de Sanshou. Na verdade o termo Sanshou é usado na China para se referir a combates de mãos livres desde o séc. II A.C. Em mandarim, Sanshou quer dizer literalmente mãos livres, e é um termo usado nas escolas de nossa linhagem para se referir ao treino de luta sem armas e sem regras de competição. Não se trata, portanto, de uma modalidade separada ou de um estilo em si, mas sim de uma parte integrante e fundamental do treino tradicional.

Estes treinamentos de combate, onde os praticantes se enfrentam e colocam à prova as técnicas aprendidas, são essenciais para a formação das virtudes buscadas, pois submetem os alunos a situações de tensão onde eles aprendem a controlar seu temperamento e a transformar aquele momento estressante em uma oportunidade de aprendizagem. Os alunos são incentivados a desenvolver sua coragem, para enfrentar qualquer oponente ou qualquer desafio que a vida lhes lançar, mas também são orientados a manter o seu ego sob controle, não permitindo que a habilidade em combate se converta em vaidade.

Através dessa prática desenvolvemos nossa auto-estima, eliminando as barreiras construídas pelo ego. Aprendemos que não se trata de bater ou apanhar, mas de uma interação com a outra pessoa, onde por vezes estaremos em vantagem e por outras vezes estaremos em desvantagem. Aprendemos também que muitas vezes quando sofremos um golpe, quem sente a dor não é o corpo e sim o nosso orgulho.

Todos são ensinados a manter sempre o respeito com o adversário, lembrando que o principal oponente não é o colega, mas sim o próprio praticante com suas próprias limitações. No treinamento de combate buscamos superar a nós mesmos, e o adversário passa a ser um grande parceiro nessa luta contra nossas próprias limitações, apontando nossas falhas e nos proporcionando a oportunidade de superá-las.


Quem pode treinar?

Antes de tudo é importante ressaltar que o treinamento pode ter inúmeros objetivos, e que cada praticante segue um caminho próprio e individual. Há quem treine buscando principalmente o desempenho em combate, por exemplo, e há quem treine pelo exercício lúdico. Muitos procuram benefícios terapêuticos, e outros encontram na prática da arte marcial um caminho para a iluminação espiritual. Há inúmeras motivações entre os praticantes, ainda que todos tenham escolhido trilhar o caminho da arte marcial para chegar aos seus objetivos. Em nossa escola recebemos de braços abertos todas as pessoas interessadas em aprender, sejam quais forem suas motivações, desde que não entrem em conflitos com nossos valores e nossa ética marcial.

Nossos alunos compõem um grupo muito heterogêneo, pois há pessoas de todas as idades e de todas as classes sociais, cada um com seus valores e objetivos particulares. Crianças com menos de 10 anos de idade treinam juntamente com jovens adultos e até mesmo com senhores e senhoras com mais de 70 anos de idade. Há empresários, estudantes, médicos, arquitetos, bancários, policiais, professores, motoristas, engenheiros, vigilantes, dentre tantas outras profissões, todos treinando juntos no mesmo ambiente.

Outro ponto importante, que diferencia nosso Kung Fu de muitas outras artes marciais, é que todos treinam juntos, desde iniciantes a alunos muito avançados, sem distinção de idade, sexo ou qualquer outro tipo de separação. Não há sequer um indicativo visual para segregá-los por graduação, como faixas coloridas ou uniformes diferentes. Tampouco há turmas separadas para crianças, jovens ou adultos. De fato em nossa escola todos são tratados com o mesmo carinho e respeito, porém recebem atitudes diferentes dos outros conforme suas próprias atitudes.

Ainda que todos treinem no mesmo ambiente, há obviamente uma diferenciação técnica entre os praticantes. A aula coletiva é a mesma para todos, mas os movimentos são adaptados aos praticantes iniciantes e aos mais experientes, aumentando o refinamento e o grau de dificuldade das técnicas executadas. As orientações são passadas pelo professor individualmente para cada aluno no desenvolvimento de suas próprias técnicas, respeitando as dificuldades e limitações do praticante. Alguns exercícios ou movimentos são adaptados para determinados alunos, como crianças ou pessoas com algum tipo de problema de saúde, evitando excessos ou sobrecargas.

Muitos cuidados devem ser tomados, portanto, quando uma pessoa decide treinar Kung Fu, sendo provavelmente o mais importante deles a procura pela orientação adequada. Encontrar um verdadeiro professor ou mestre de artes marciais é um passo essencial nessa jornada, pois mesmo a semente mais forte não consegue brotar e sair do solo se não houver um sol radiante para lhe indicar o caminho.

Uma vez iniciado o treinamento com seu professor ou mestre, todo praticante deve ter em mente que encontrará limitações ao longo dos treinos. Cada pessoa é diferente e possui suas próprias peculiaridades, desenvolvendo o treinamento de forma individual e única. Alguns possuem grande poder de concentração, outros desenvolvem a força física com muita facilidade, e outros ainda possuem uma flexibilidade natural que facilita muito seu desenvolvimento. Cada pequena característica do praticante é levada em consideração pelo professor, que orienta o treinamento de forma a maximizar o desenvolvimento desses potenciais e superar os obstáculos e limitações.

Pessoas com necessidades especiais, físicas ou mentais, podem muitas vezes ser subestimadas na sociedade, mas na verdade as conquistas e méritos do ser humano costumam ser proporcionais às dificuldades e aos obstáculos que ele encontra em seu caminho. Já tivemos praticantes com limitações severas treinando conosco em nossa escola, e invariavelmente estas pessoas se tornaram grandes exemplos de perseverança, dedicação e superação.

Podemos dizer então que qualquer pessoa, de qualquer idade, tipo físico, força, capacidade de concentração, etc., é capaz de se desenvolver e praticar a arte marcial, desde que tenha a disciplina necessária e se dedique muito para atingir seus objetivos, concentrando suas energias para evoluir sempre. Em nossa arte buscamos trilhar o caminho do guerreiro, um caminho de muita luta, esforço, dedicação e trabalho. O iniciante precisa estar disposto a enfrentar suas limitações e superá-las como um verdadeiro lutador.


Disciplina

Durante o treinamento de artes marciais o praticante desenvolve - consciente ou mesmo inconscientemente - diversas capacidades mentais e psicológicas. A disciplina é o primeiro aspecto que todo praticante precisará desenvolver. À medida que o treinamento avança, o mestre, professor ou instrutor vai demonstrando ao aluno que os bons resultados são obtidos apenas através do treinamento diligente. Este conceito também é passado pelos próprios colegas de treino, pois o praticante pode observar claramente o desempenho de seus colegas e relacioná-lo ao grau de dedicação e compenetração de cada um. Assim, aos poucos cada pessoa vai se adaptando e aprendendo a se disciplinar por conta própria.

A autodisciplina é muito mais importante do que a disciplina imposta, pois acarreta mudanças internas no praticante que permitem a ele desenvolver as demais habilidades. Há uma parábola chinesa que demonstra claramente a distinção entre a auto-disciplina e a disciplina imposta:

Chanzi e Ligong eram dois monges budistas que haviam descido do templo no alto da montanha para trocar suprimentos na cidade. Quando regressavam, viram na margem oposta de um rio uma moça de grande beleza, que não atravessava as águas com medo de estragar suas roupas. Chanzi lembrou-se imediatamente que havia feito votos de celibato e não poderia olhar para mulheres, continuando seu trajeto. Para sua surpresa, Ligong atravessou até o outro lado, pegou a moça no colo e deixou-a na outra margem do rio. Após muitas palavras de agradecimento da bela garota, ambos seguiram em silêncio seu caminho. Algumas horas mais tarde, quando finalmente chegaram ao templo, Chanzi não suportou a angústia e perguntou ao colega: 'Ligong, por que você fez aquilo? Por que pegou aquela moça no colo, sabendo que não podemos nem mesmo olhar para mulheres?' E então Ligong respondeu: 'Eu não vi nenhuma mulher, apenas uma pessoa que precisava de ajuda. Prestei socorro e a deixei na margem do rio. Mas você está com ela até agora em sua mente.'

Enquanto um dos monges estava apegado às normas de sua doutrina, ou seja, sua disciplina vinha de fora, o outro já as tinha superado, pois sua disciplina interna era tão forte que as normas externas já não se faziam mais necessárias.


A relação Mestre e Discípulo

Antes de falarmos sobre a relação entre o mestre e seu discípulo em nossa arte, devemos explicar o conceito de "mestre" ao qual nos referimos. No contexto atual de nossa sociedade, quando falamos em mestre podemos estar nos referindo a três concepções bem distintas. A primeira diz respeito ao mestre que possui esse título por ser reconhecido como tal por sua comunidade. Trata-se de uma valorização formal de um determinado sujeito, ressaltando seus conhecimentos, técnicas ou façanhas. Acima de tudo é uma titulação, atribuída pela comunidade, que destaca aquela pessoa dentre as demais. Uma segunda noção de mestre diz respeito àquela situação em que determinada pessoa se auto-intitula "mestre" e assume essa alcunha com vistas a promover-se e angariar discípulos. Nesse caso trata-se novamente de um título, porém cuja atribuição é feita pelo próprio indivíduo e não por sua comunidade. De fato o que se estabelece normalmente é uma relação de idolatria, cujos objetivos muitas vezes não passam de fins comerciais.

Há, entretanto, uma terceira concepção do termo, que ocorre quando uma ou mais pessoas se identificam com o mestre e estabelecem uma relação de mestre/discípulo com ele por conta própria. É a esta concepção que nos referimos a partir daqui quando citarmos a relação entre mestre e discípulo em nossa arte. Esta terceira noção difere completamente das duas primeiras, principalmente no sentido de que mestre não representa título algum, mas sim um dos pólos de uma relação. Para que haja essa relação, basta que o mestre veja determinada pessoa como discípulo e vice-versa. Não é necessário usar títulos ou chamamentos. O discípulo pode chamar o mestre pelo nome, ou até mesmo por um apelido. Não se trata de uma relação de idolatria ou algo do gênero; se trata, de fato, de uma relação íntima de identificação mútua, de respeito, carinho e dedicação. Essa relação é totalmente pessoal e não precisa ser explicitada em momento algum.

Semelhante à relação entre pai e filho, o convívio entre o mestre e o discípulo permite que cresça ali um sentimento de legado a ser passado. Através dos anos cria-se um vínculo pessoal de respeito e confiança mútuos, donde germina um carinho e um agradecimento que não podem ser expressos em palavras.

Logicamente, não se pode esperar que todos os alunos criem esse tipo de laço pessoal com seus professores. Uma relação deste tipo não é exigida ou incentivada em nossa escola como algo formal e obrigatório. É apenas uma conseqüência inevitável do trabalho que desenvolvemos em conjunto, estreitando laços afetivos e criando uma estrutura similar à de uma verdadeira família.


Nossa linhagem, nossos mestres


Mestre Ku Yu Cheong

Nascido em 1894, desde criança o mestre Ku Yu Cheong [顧汝章, Gù Rǔ Zhāng] já treinava com seu pai Ku Lei Chi, que era mestre nos estilos Tam Tui e Ch'a Chuen. Quando tinha apenas doze anos, seu pai foi acometido por uma doença grave e faleceu, mas não antes de aconselhar o filho a seguir seu treinamento com o mestre Yin Kai Yun. Ku Yu Cheong tornou-se então discípulo do mestre Yin Kai Yun, de quem herdou o estilo dos 10 Caminhos de Shaolin, a técnica de Chi Kung conhecida como Pequeno Sino de Ouro e a famosa Palma de Ferro. Aprendeu também outros grandes estilos dos principais mestres de seu tempo: Lee Kim Lam (estilo Pa Chi), Sun Lu Tang (estilo Pa Kua) e Chin Hsiah Teah (estilo Hsing-I). Ao final, abriu sua própria escola que chamou de Shaolin do Norte.

Ku Yu Cheong foi convidado para integrar a famosa Academia Central de Nanking, onde conheceu grandes mestres como general Li Kin Lam, Sun Lok Tong, Yang Cheng Fu, Mong Lai Sing e outros. Posteriormente ficou conhecido como o primeiro dos Cinco Tigres do Norte. Sua fama foi muito grande, especialmente pelo domínio do Siu Cant Son (Pequeno Sino de Ouro) integral, técnica de Chi Kung que lhe permitia façanhas como quebrar pilhas de 12 tijolos apoiados diretamente no solo, suportar o peso de um automóvel sobre o abdome, ou ainda suportar quatro homens sobre uma pedra em seu corpo (aproximadamente 300kg) apoiado apenas na cabeça e nos pés, em forma de "ponte". Ku Yu Cheong faleceu em 1952.


Mestre Yim Sheung Mo

Nascido em 1882, Yim Sheung Mo [嚴尚武, Yán Shàng Wǔ] tornou-se mestre no estilo de Hung Gar. Aos 35 anos perdeu um combate para Ku Yu Cheong e abandonou seu estilo para se tornar aluno de seu adversário. Com o passar dos anos, destacou-se a ponto de se tornar um de seus três herdeiros no estilo Shaolin do Norte. A exemplo de Ku Yu Cheong, Yim Sheung Mo também estudou os principais estilos dos grandes mestres de seu tempo: Tam Sam (estilo Bak Sing Choy-Li-Fat) e Wong Lai Shen (estilos Zhuran Men e Luo Hap), outro dos 5 Tigres do Norte e que aprendeu de Du Qing Wu (Zhuran Men) e de Chiu Yam Chao (Luo Hap).

Assim como Ku Yu Cheong, Yim Sheung Mo também tornou-se famoso por suas habilidades marciais. Conta-se que certa vez furou uma xícara de porcelana com seu dedo médio sem nem mesmo mover a xícara do lugar. Outra história famosa conta o momento em que o mestre fez uma visita amistosa aos seus antigos colegas de Hung Gar. Lá, os praticantes de seu antigo estilo falavam com ele de forma irônica e pejorativa por ter abandonado o Hung Gar para treinar Shaolin do Norte. Na saída, após se despedir, Yim Sheung Mo abriu um buraco na parede com sua cabeça e então foi embora sem dizer uma única palavra. Graças ao seu treinamento de Chi Kung marcial, tornou-se conhecido pelo apelido Yim "Cabeça-de-Ferro".

A conselho de Ku Yu Cheong, mudou-se para Hong Kong em 1952 devido aos problemas políticos que a China enfrentava. Lá, foi recebido e hospedado na casa da família Chan, onde começou a dar aulas. Dentre os diversos alunos de Yim Sheung Mo ao redor do mundo (Chan Ning Ling, Choy Ning, Au Wing I, Wong Chia Man, Kwok Wing Lam, entre outros), aquele que mais se destacou, tornando-se herdeiro de suas técnicas, foi o mestre Chan Kowk Wai.


Mestre Chan Kowk Wai

Nascido em 1935, Chan Kowk Wai começou a treinar com apenas 4 anos de idade. O menino assistia escondido as aulas de Choy Li Fat do Mestre Chan Cheok Sing, até ser encontrado por um aluno do mestre. Ao ver as habilidades que o garoto apresentava, Chan Cheok Sing não o repreendeu e o tomou como seu aluno.

Chan Kowk Wai permaneceu na província de Cantão treinando Choy Li Fat até sua adolescência, quando por motivos políticos do país teve que mudar-se para Hong Kong. Lá, aprendeu o estilo Lo Han com seu tio, o mestre Ma Kim Fong.

Em 1952 o mestre Yim Sheung Mo veio para Hong Kong, onde hospedou-se na casa da família Chan e começou a ministrar aulas. O ainda jovem Chan Kowk Wai aproveitou a oportunidade para tornar-se seu aluno e assim aprender o estilo Shaolin do Norte com o mestre Yim Sheung Mo, com quem treinava dia e noite. Sua dedicação foi tão intensa que tornou-se herdeiro do estilo Shaolin do Norte, das técnicas de Chi Kung marcial e massagem curativa.

Apresentado por seu mestre Yim Sheung Mo, Chan conheceu diversos outros mestres famosos da China, aprendendo muitos de seus estilos: Louva-a-Deus Sete Estrelas (Mestre Won Hong Fan), Garra de Águia (Mestre Ching Jim Man) e Hung Sing Choy Li Fat (Yim You Chin). Graças à sua dedicação e incrível habilidade, Chan Kowk Wai tornou-se famoso e respeitado dentro e fora da China.

Em 1960, quase uma década depois, mestre Chan Kowk Wai mudou-se para o Brasil e fundou o Centro Social Chinês, onde ministrou aulas por mais de 10 anos. Em 1973, fundou a Academia Sinobrasileira de Kung Fu, até hoje matriz de várias academias por todo o Brasil e até mesmo no exterior.


Mestre Lee Chun Deh

Em 1966, Lee Chun Deh chegou ao Brasil e foi morar em São Paulo. Junto com alguns amigos da colônia chinesa, decidiu procurar um treinamento de arte marcial chinesa e logo encontrou a escola do mestre Chan Kowk Wai, onde começou a ter aulas do estilo Shaolin do Norte diretamente com o grão-mestre.

Praticamente 10 anos depois, em 1975, graças à sua intensa dedicação ao Kung Fu, Lee foi escolhido para difundir a arte na região sul do país. Lee, que já era professor naquela época, trancou seu curso na faculdade e imediatamente partiu para Porto Alegre, onde começou a dar aulas. No ano seguinte, fixou residência em Florianópolis e passou a dividir-se ensinando em Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

As dificuldades de lecionar em 3 estados diferentes se tornaram cada vez maiores, e mestre Lee Chun Deh viu-se obrigado a deixar as resposabilidades de algumas de suas academias para seus alunos mais antigos. Por alguns anos residiu em Porto Alegre, mas em 1983, ao concluir o curso de Pedagogia, mudou-se definitivamente para Curitiba.


Mestre Jorge Jung

Jorge Jung começou a praticar o Kung Fu Wushu em 1975, ainda aos 17 anos de idade, quando o mestre Lee Chun Deh veio para Porto Alegre difundir a arte. Jorge Jung foi um dos primeiros alunos de Lee Chun Deh, e destacou-se de forma incomparável.

Dedicando-se exclusivamente ao Kung Fu, Jorge Jung formou-se cedo no estilo, sendo designado pelo mestre Lee Chun Deh inclusive para difundir o estilo em outros estados. Quando seu mestre deixou o Rio Grande do Sul e foi para Santa Catarina e Paraná, mestre Jorge Jung ficou responsável pela academia no centro de Porto Alegre onde ainda leciona.

Mestre Jorge Jung é responsável pela formação de grande parte dos professores de Kung Fu do Rio Grande do Sul e de toda a região sul do Brasil, tendo deixado um legado que continua crescendo cada vez mais.


Mestre Lauro Telles

Mestre Lauro Telles iniciou seu aprendizado no Kung Fu sob a tutela do mestre Jorge Jung, aluno mais graduado na época em que o mestre Lee Chun Deh deixou o Rio Grande do Sul e foi para Santa Catarina e Paraná. Em 1989, começou a ministrar aulas particulares de Kung Fu. Após lecionar em diversas academias de Porto Alegre, decidiu abrir sua própria escola e fundou a Equilíbrio Academia, que hoje possui sede em Alvorada e Porto Alegre.

Com mais de 30 anos de experiência no Kung Fu, mestre Lauro Telles possui hoje um nome reconhecido e respeitado nacional e internacionalmente, sendo um dos fundadores da Federação Gaúcha de Kung Fu Wushu e o primeiro atleta convocado pela Confederação Brasileira para representar o Brasil em um campeonato mundial na China. Ao longo de sua trajetória, já formou vários professores no estilo Shaolin do Norte e já teve algumas dezenas de alunos campeões nacionais e internacionais.

Prof. Roberto Pedroso

Prof Roberto Pedroso e Mestre Lauro Telles (2005)

O professor Roberto Pedroso é discípulo do Mestre Lauro Telles, seguindo a tradição e os ensinamentos de sua linhagem que foi passada de mestre para discípulo ao longo das gerações desde sua origem no famoso e lendário Templo Shaolin.

Em nossa escola, o principal estilo de Kung Fu praticado é o Shaolin do Norte, ou Bei Shaolin Quan (北少林拳), na linhagem do Grão-mestre Chan Kowk Wai, atual herdeiro do estilo no mundo inteiro. O próprio grão-mestre, no entanto, também propaga técnicas de outros estilos que aprendeu ao longo de sua trajetória, e da mesma forma ensinamos alguns destes estilos em nossa escola, como Tai Chi Chuan, Choy Li Fat, Louva-a-Deus, Xing Yi, Lohan, Lohap, Tantui, Garra de Águia, Wing Chun e algumas técnicas de Wushu Moderno.

Professor Roberto ensina Kung Fu e Tai Chi Chuan desde 2009, tendo treinado por mais de uma década sob a tutela do Mestre Lauro Telles até concluir sua formação. Hoje continua aprendendo e se aperfeiçoando em técnicas avançadas dos estilos acima mencionados junto ao Mestre Telles, bem como em treinamentos de Chi Kung (Qi Gong) Avançado, Palma de Ferro, Pequeno Sino de Ouro, entre outros. Além do treinamento de arte marcial, o professor Roberto Pedroso atua com Filosofia Chinesa e como terapeuta de Medicina Tradicional Chinesa, aplicando técnicas de Qi Gong, Tuiná, Acupuntura, entre outros. Também ministra cursos, palestras e workshops.


Shifu Roberto Pedroso e Shimu Sílvia com sua família shaolin (2016)
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